Antecedentes à Fundação

É impossível pensar Petrópolis, Juiz de Fora, Barbacena, São João Del Rei e Ouro Preto sem antes pensar o Caminho Novo. Também não dá para entender Petrópolis sem a subida da Serra Velha, por onde vieram os nossos pioneiros colonizadores. Conhecer esse caminho e a Serra Velha é conhecer 300 anos da nossa história, que começou em 1724 quando Bernardo Proença abriu uma variante do Caminho Novo, passando pelo alto da serra onde hoje está nossa cidade. Antes da variante, o Caminho Novo passava por Xerém, Pati do Alferes e ia para a região do ouro em abundância, recém-descoberto em Minas Gerais.

Pelo ano de 1700 o paredão de até 2000 m da Serra do Mar com sua vegetação fechada continuava a ser, como a 200 anos, um obstáculo assustador para os colonizadores. Mas havia tanto ouro sendo explorado em Minas Gerais que o Governador Geral Artur de Sá e Meneses teve que mandar abrir um caminho saindo do fundo da Baia da Guanabara até o povoado de Vila Rica, atual Ouro Preto, para que o ouro extraído pagasse os impostos devidos. Essa ligação ficou conhecida como Caminho Novo, porque havia um "Caminho Velho" que saía de São Paulo e levava 60 a 70 dias de viagem até lá, o triplo do tempo necessário, passando pelo Caminho Novo. Acontece que em Xerém, a subida do paredão da Serra do Mar era péssima, onde muitas vezes, pessoas e mulas carregadas rolavam ribanceira abaixo. Depois de 20 anos de sofrimento, Bernardo Proença, um fazendeiro da região, se propôs abrir uma nova subida da Serra por antiga trilha de índios em sua fazenda. Aceita a proposta, Proença construiu o Porto da Estrela onde hoje é a Praia de Mauá, que se tornou logo uma importante vila e depósito de mercadorias, hoje em ruínas, mas que ainda pode ser visitado. O Porto da Estrela era o início da variante do Caminho Novo que subia a Serra do Mar atravessando a nossa exuberante Serra Velha, a partir da Raiz da Serra. Foi no início dessa subida que o Barão de Langsdorff construiu sua Fazenda da Mandioca, que era um verdadeiro centro de pesquisa russo-alemão encarregado de "descobrir" o Brasil e investigar a natureza tropical. Chegando ao Alto da Serra, a variante de Proença ia para a Rodoviária. Dali os tropeiros seguiam então para as Minas Gerais pelas ruas Silva Jardim, Quissamã, Correias e Secretário, até encontrar o Caminho Novo em Paraíba do Sul. Até hoje existe uma Estrada Mineira, em Correias e um bairro Caminho Novo com a rua Caminho Novo, em Barbacena, antigos trechos da histórica trilha. Segundo o Registro de Paraíba do Sul, um tipo do nosso pedágio de hoje, em 1824, a cada dia, indo e vindo do interior, passavam em média pelo Caminho Novo 143 mulas dos tropeiros e 302 pessoas. Por ela também passaram os importantes naturalistas-viajantes dos anos 1800 como Spiz, Von Martius, Saint Hilaire, Walsh, Freireys e muitos outros que, como o Barão de Langsdorff, queriam conhecer o novo país para informar os seus governos.

Bernardo Proença recebeu pelo seu trabalho uma sesmaria no Alto da Serra, onde hoje está quase toda a cidade de Petrópolis. Outras sesmarias foram distribuídas ao longo do Caminho Novo e logo a região se desenvolveu muito. Pelo Caminho Novo, Dom Pedro I em 1827, levou sua filha, a princesa Dª Paula, de sete anos e muito doente, para se recuperar em Correias e acabou comprando a Fazenda do Córrego Seco, origem de Petrópolis, fundada doze anos depois por seu filho Dom Pedro II. Não fosse o Caminho Novo, Pedro I poderia ter levado sua filha para se tratar em Miguel Pereira, que tem ótimo clima e ficava no caminho da antiga subida do Caminho Novo por Xerém, depois abandonada. E provavelmente essa região não seria como é hoje, graças a Bernardo Proença.

O Caminho Novo faz parte de uma rede de importantes caminhos do Brasil Colonial onde é dado o nome de Estrada Real. Muitos desses cominhos eram antigas trilhas e veredas abertas pelos bandeirantes que se embrenhavam pelo sertão, na direção de Minas Gerais e Goiás, a procura de ouro e pedras preciosas. O mais antigo deles, conhecido como Caminho Velho, ia de São Paulo de Piratininga até Taubaté, subia a Serra da Mantiqueira, passava por São João del Rey e ia para Vila Rica, Caetés, Sabará. Dali havia extensões para Tijuco (Diamantina), Jaguará, até a região da Fazenda Meia Ponte, hoje Pirenópolis, Goiás. Mas quem vinha do Rio tinha que ir de barco até Paraty, subir e descer a Serra do Mar até Taubaté para encontrar o Caminho Velho e seguir adiante. Do Rio eram "95 dias de viagem, sendo 43 a pé", conforme descrição do Governador Geral Artur de Sá e Meneses, que fez a viagem em 1699, para avaliar as possibilidades da exploração do ouro. Foi por causa dessa viagem que ficou decidida a abertura de um caminho oficial por onde pudesse ser transportado sob controle, o ouro extraído nas minas e fosse feito todo o suprimento das dezenas de arraiais e vilas que iam surgindo em torno da mineração. O caminho então aberto por Garcia Rodrigues Pais acrescido da variante de Bernardo Proença é que se denominou Caminho Novo.

Nas condições da época, a abertura dos caminhos da Estrada Real foi uma providência proveitosa para a colônia e para a metrópole. Representou a salvação econômica de Portugal beneficiado com os 170 milhões de libras esterlinas da renda da mineração do ouro, fora o contrabando e que representou 31,8% de tudo o que a metrópole arrecadou durante os 308 anos de vida colonial. Portugal estava falido por causa da restauração da monarquia e pelas questões com as Províncias Unidas. O Brasil, antes desses caminhos, não existia como unidade geopolítica e administrativa. Havia algumas feitorias no litoral explorando açúcar, que enfrentava uma enorme queda de preço no mercado internacional e outros núcleos urbanos na Bahia, Nordeste e São Paulo. Esses caminhos integraram o interior ao litoral, promovendo uma unificação cultural e de esforços que resultou na ocupação e no desenvolvimento de uma vasta região onde se instalaram fazendas, ranchos, pousos e vendas. Data daí também o início da nossa atividade administrativa pública organizada, com o emprego de funcionalismo para controle da zona mineira, criação dos "Registros" ao longo dos caminhos, monetarização da economia com a criação da Casa da Moeda, das Casas de Fundição e formação enfim, de uma classe média mais sólida, ao lado de outras como a dos mineradores, artesãos, administradores etc.

Hoje os caminhos da Estrada Real, aperfeiçoados ou não, são percorridos a 100 km/h ou então por carros de boi, ambos muito necessários para a nossa atividade econômica.

Na época, ao longo desse caminho não havia nenhuma atividade econômica, mas o governo português foi distribuindo sesmarias para pessoas que se destacavam na vida política e na segurança da Colônia de tal modo que, quando Petrópolis foi fundado 130 anos depois, já havia um grande número de fazendas entre a baia da Guanabara e Vila Rica e o trânsito pelo Caminho Novo era muito grande. Na região onde seria fundada Petrópolis as fazendas eram:

  • Fazenda do Rio da Cidade, na Estrada do Contorno.
  • Fazenda do Pe. Correia, em Correias.
  • Fazenda do Córrego Seco, cuja sede era onde hoje está o Ed. Pio XII (Rua Marechal Deodoro).
  • Fazendas Quitandinha, Samambaia, Retiro, Itamaraty, Secretário, que depois deram seus nomes aos bairros que conhecemos.
  • Fazenda Engenhoca, onde hoje está a estação de transbordo de Corrêas.
  • Fazenda Mangalarga e Fazenda das Arcas, em Itaipava.
  • Fazenda Sumidouro, em Pedro do Rio.
  • Fazenda Santo Antônio, na estrada para Teresópolis.
Entre essas fazendas havia diversos caminhos menores sendo o mais importante o Caminho Novo. Ela marcou o início do crescimento da Província do Rio de Janeiro e, em especial, o desenvolvimento do município de Petrópolis.

As fazendas do Pe. Correia e do Córrego Seco são as mais significativas para a História de Petrópolis. A do Córrego Seco, no alto da Serra da Estrela era muito simples e muito pobre. A do Pe. Correia era a mais importante da região.

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